Guilherme d’Avila Lins prepara lançamento de livros sobre Jorge Rodrigues e Pero de Magalhães Gândavo – William Costa // williamcosta.pb@dabr.com.br
O médico, professor e historiador autodidata Guilherme Gomes da Silveira d’Avila Lins, de 68 anos, é, sem favor nenhum, um dos mais importantes nomes da historiografia brasileira contemporânea, notadamente no campo dos estudos da História Colonial, com mais ênfase ainda nas antigas capitanias situadas a Nordeste do país. Pesquisador autodidata da História, sim, mas capaz, por méritos próprios, reconhecidos aqui e além-mar, de calar a boca de muitos historiadores profissionais, quando solicitado a expor, por exemplo, seus profundos e inquestionáveis conhecimentos acerca da origem e evolução da Paraíba.

Obras serão lançadas paralelamente no Brasil e em Portugal Foto: Rafaela Tabosa/ON/D.A Press
Indignado com a maneira descortês, para dizer o mínimo, com que fora tratado nas ante-salas de algumas editoras locais, Guilherme d’Avila enviou os originais de seus dois novos livros – Bibliografia das obras impressas em Portugal pelo tipógrafo Jorge Rodrigues entre 1598 e 1642 (2ª edição) e Pero de Magalhães Gândavo, autor da primeira obra sobre a ortografia da línguaportuguesa e da primeira História do Brasil – para a Editora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pedindo para que fossem submetidos à análise crítica e de mérito. “Submeti-me a um vestibular e fui aprovado, inclusive com elogios”, revelou o autor, que prepara o lançamento das obras no Brasil e em Portugal.
A bibliografia das obras impressas por Jorge Rodrigues surgiu em uma plaqueta despretensiosa publicada por Guilherme d’Avila em 1997, com selo do Empório dos Livros. Segundo o autor, o que lhe chamou atenção no tipógrafo português foi a sua proeminência no final do século 16 e início do século 17. “Sabe-se muito pouco a respeito dele e o pouco que se sabe está errado”, ressaltou o historiador. “Consegui coligir obras por ele impressas desde 1598 até 1642, o que significa 44 anos de atividades profissionais. Ele imprimiu, entre outros autores, obras de Cícero, Garcia Resende, João de Barros, Duarte Nunes de Leão, Miguel de Cervantes e Lope de Vega”, destacou.
Jorge Rodrigues, na opinião do historiador, tinha enorme gabarito, imprimindo obras em português, espanhol e latim. Mas tudo isso seria apenas curiosidade se um fato relacionado ao tipógrafo não calasse fundo na paraibanidade e no gosto de Guilherme d’Avila pela História: a impressão, em 1632, de um opúsculo considerado da mais alta importância para o período holandês na Paraíba. “Trata-se de uma obra em que o autor, um monge beneditino, testemunhou o frustrado ataque holandês de 1631, com detalhes e minúcias jamais encontrados em nenhum outro autor.”
Para Guilherme d’Avila, essa obra raríssima, da qual só se conhecem três ou quatro exemplares, é não somente uma preciosidade bibliográfica como também historiográfica. “Ela serve de forma invulgar – continuou – como um contraponto histórico do mesmo episódio relatado por um militar do lado holandês, Ambrosius Rischoffer. Então você tem condições de fazer uma análise do mesmo episódio visto por pessoas de partidos opostos”. Ele ressaltou que essa obra impressa por Jorge Rodrigues, embora seja muito difundida do ponto de vista bibliográfico, é virtualmente desconhecida do ponto de vista historiográfico, sendo mencionada “por uns dois ou três autores”.
Obras de interesse
Jorge Rodrigues também “caiu nas graças” de Guilherme d’Avila por ter impresso, em Portugal, pelo menos sete obras de interesse direto para o Brasil, entre elas, a Relação da aclamação que se fez na capitania do Rio de Janeiro do Estado do Brasil e nas mais do sul ao senhor rei Dom João IV. “Eis os motivos fundamentais que fizeram estudar a produção tipográfica deste português tão caro a nós, brasileiros. Nesta segunda edição da Bibliografia, revisada e bastante ampliada, consegui coligir nada menos que 142 composições tipográficas distintas e, além disso, logrei conseguir permissão especial da Biblioteca Nacional de Portugal para reproduzir os frontispícios dos 29 títulos que ilustram a obra”, sublinhou.
Guilherme d’Avila chamou atenção ainda para o fato de Jorge Rodrigues ter sido um dos encarregados da composição das ordenações e leisdo Reino de Portugal, no ano de 1636. A segunda edição traz o prefácio da professora Rosa Maria Godoy Silveira, para quem o autor é, “com certeza, o maior estudioso e conhecedor da História da Capitania da Paraíba e, por assim ser, um especialista de História Colonial brasileira e da administração portuguesa no Brasil, nos séculos XVI e XVII”.
O eclipse de Pero de Magalhães Gândavo
A motivação que levou Guilherme d’Avila a fazer o que ele modestamente considera um “pequeno” estudo sobre Pero de Magalhães Gândavo foi o fato do historiador e cronista português do século 16 ter estado, nas últimas décadas, um tanto quanto esquecido. “Achei que era preciso prevenir um segundo eclipse do seu nome, já que o primeiro durou cerca de 200 anos”, criticou o autor do livro, que traz o prefácio assinado pelo escritor Joacil de Brito Pereira e o posfácio pelo poeta e crítico de literatura Hildeberto Barbosa Filho, ambos da Academia Paraibana de Letras (APL).
Guilherme d’Avila afirmou que Gândavo é uma figura tão grandiosa quanto pouco conhecida, motivo pelo qual ele espera, com o livro, dar uma pequena contribuição acerca das incógnitas que cercam o historiador, além das certezas que já são de domínio público no que diz respeito à sua origem, vida, nome e obras. “O mais antigo bibliógrafo de língua portuguesa qualificou Gândavo, no século 18, como insigne humanista e excelente latino, tendo possuído, inclusive, uma escola de gramática latina”, observou o pesquisador, acrescentando que Gândavo é, “simplesmente”, o autor da primeira obra especializada em ortografia da língua portuguesa e, também, da primeira História do Brasil.
Gândavo, segundo Guilherme d’Avila, deu muito trabalho a inúmeros estudiosos no processo de elucidação e interpretação de sua obra histórica global. Entre esses pesquisadores, ele destacou João Capistrano de Abreu, Oliveira Lima, Rodolfo Garcia, Hélio Viana, Luiz de Matos e “o grande linguista e camonista” Emmanuel Pereira Filho. “Isto porque – prosseguiu -, os escritos de Gândavo despertam a atenção de estudiosos de diversos campos do saber: História, Filologia, Linguística, Biografia e Bibliografia. Muito caminho há ainda que se andar para se conhecer melhor sua obra.”
Há outro fato relacionado a Gândavo que d’Avila considera importante lembrar. Entre as publicações conjuntas do autor – a História da Província do Brasil e O tratado da terra do Brasil -, adotou-se, infelizmente,para esta última, o texto menos confiável em detrimento do único manuscrito. “Diante disso tenho em mente mais duas obras para o futuro. Uma delas é a análise crítica daquele manuscrito quinhentista, acrescido de sua transcrição diplomática. E o outro será uma republicação, que espero seja definitiva, da História da Província do Brasil.”
Fonte: Jornal O Norte